Nutricionistas
brasileiros querem adaptar ao cardápio nacional os fundamentos da
dieta dos povos mediterrâneos para prevenir as doenças cardíacas
e combater o câncer
Patrícia Andrade
Nos anos
1940 veio o estalo. Especialistas americanos começaram a se
perguntar por que a população do Mediterrâneo tinha menos doenças
cardíacas. A partir dessa curiosidade iniciaram pesquisas para
investigar o motivo e, após duas décadas, encontraram a resposta
na mesa. De lá para cá só aumentou o número de trabalhos científicos
confirmando os benefícios dos hábitos alimentares dessa região.
Com uma dieta rica em frutas, verduras, grãos, cereais e peixes, além
do azeite de oliva como principal fonte de gordura, esses povos também
vivem mais e correm menos risco de desenvolver tumores. No mês
passado, no Congresso Internacional sobre Dieta Mediterrânea, em São
Paulo, os nutricionistas brasileiros decidiram: é preciso adaptar
ao menu nacional os princípios dessa alimentação.
Azeite de oliva
melhora as taxas de colesterol
Não faltam razões
para introduzir na mesa brasileira os conceitos da dieta do Mediterrâneo.
As estatísticas dos males cardíacos no Brasil já seriam um bom
motivo. Por ano, morrem 300 mil pessoas vítimas de doenças do coração
– 28% do total de óbitos no país. "Essa dieta previne a
obstrução das artérias", afirma o cardiologista Daniel
Magnoni, presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição.
Um dos principais
responsáveis pela façanha é o azeite de oliva – rico em ácidos
graxos monoinsaturados, uma gordura benéfica para o organismo.
Pesquisas comprovaram que esse óleo aumenta as taxas do colesterol
bom – o HDL – e diminui os níveis do vilão da história, o LDL.
Segundo os especialistas, isso ocorre não apenas porque ele está
repleto de "gordura saudável", mas também por possuir
substâncias com poder antioxidante.
Em um estudo recente,
o médico espanhol Francisco Pérez Jiménez, da Universidade de Córdoba,
mostrou que moléculas de LDL extraídas das artérias de adeptos da
alimentação mediterrânea demoraram 61 minutos para se enferrujar.
Já entre quem não seguiu essa dieta, o tempo de oxidação foi de
40 minutos. Quando o colesterol se oxida, o estrago é grande: ele
forma cristais e se deposita nos vasos sangüíneos.
Essa dieta também
previne o câncer
Os benefícios da
cozinha mediterrânea vão além do coração. Pesquisas
apresentadas em um encontro internacional sobre o tema, realizado em
outubro na cidade espanhola de Palma de Mallorca, provaram que tais
iguarias evitam tumores.
A explicação está
no baixo consumo de gordura saturada, encontrada sobretudo nos
alimentos de origem animal, e na alta ingestão de frutas e verduras
– cheias de componentes saudáveis. "Entre esses nutrientes
estão os fitoquímicos, que protegem contra o câncer e fortalecem
as defesas, os flavonóides e os carotenóides, antioxidantes
capazes de tornar as membranas celulares mais resistentes à ação
dos radicais livres", enumera a nutricionista Connie Guttersen,
do Instituto Americano de Culinária.
Missão difícil
Mesmo com tantas
vantagens, os nutricionistas sabem que é difícil importar para a
realidade nacional esse estilo alimentar. A diretora do Departamento
de Nutrição da Sociedade Paulista de Cardiologia, Sueli Longo, fez
uma análise da dieta brasileira e concluiu que a nossa população
trilha um caminho inverso ao apregoado pela cozinha mediterrânea.
"Há uma redução no consumo de vegetais, frutas e peixes. Ao
mesmo tempo aumenta a procura por carnes, queijos amarelos e
refrigerantes."
Como adaptar então
esse menu ao gosto de países como o Brasil? A nutricionista
americana Barbara Levine, da Universidade Rockefeller, dá uma
pista: "Temos que começar com as crianças, ensinando-as a
comer direito. E só vamos conseguir isso quando voltarmos nossos
olhos para a horta".