Imagine um café da manhã sem pães nem
frutas. Nas outras refeições, nada de arroz, feijão nem a maioria dos
vegetais. É assim a dieta das pessoas que limitaram quase a zero o
consumo de carboidratos. Elas viraram a pirâmide alimentar de cabeça
para baixo, seguindo a receita do cardiologista americano Robert Atkins,
que nos anos 1970 colocou tais nutrientes no posto de vilões causadores
dos quilos extras. Não sem protestos. "A Organização Mundial da
Saúde recomenda que 55% das calorias ingeridas venham dos
carboidratos", critica o vice-presidente da Associação
Internacional para o Estudo da Obesidade, Alfredo Halpern.
A gente não quer só proteína, a gente
quer carboidrato!
Os carboidratos são ingredientes
indispensáveis para que o corpo funcione a pleno vapor. "O açúcar
resultante da quebra das moléculas deles alimenta o sistema nervoso
central, estimula o pâncreas a produzir insulina e fornece energia para
os músculos", diz a nutricionista Rosa Wanda Diez Garcia, da
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, no interior paulista.
Infelizmente o brasileiro está ingerindo menos do que no passado alguns
produtos ricos em tais componentes.
Segundo uma pesquisa da Universidade de
São Paulo, o consumo de feijão diminuiu cerca de 15% nos últimos 10
anos, para se ter idéia. "É uma pena. Ele também é ótima fonte
de fibras", lamenta o bioquímico Franco Lajolo, um dos autores do
estudo. Banir os carboidratos do cardápio pode ser mais grave do que se
imagina.
Prato desfalcado
"Quem não come alimentos com essas
substâncias deixa de ingerir, por tabela, outros nutrientes
essenciais", alerta a nutricionista Mara Andréia Valverde, da
Universidade São Marcos, na capital paulista. "A banana, por
exemplo, tem muito potássio e ácido fólico. O primeiro regula a acidez
dos líquidos corporais e o segundo é importante para o sistema
nervoso."
A gente não quer só comida. Quer cintura
fina
No começo deste ano o menu proposto pelo
cardiologista Robert Atkins há quase três décadas, em que reinam
iguarias ricas em proteínas e gorduras, ganhou força. Um artigo
publicado na conceituada revista americana Science afirma que não há
evidências científicas de que uma dieta gordurosa faça mal para a
maioria da população.
Para sustentar a tese o jornalista Gary
Taubes, autor do texto, citou entre outras pesquisas uma de Havard. O
trabalho avaliou hábitos alimentares de 300 mil pessoas por 20 anos e
concluiu que não havia diferença entre a saúde de quem se fartava com
guloseimas cheias de gordura e a daqueles que as evitavam. Famoso por
ajudar a moldar corpos como o da atriz Vera Fischer, que perdeu 15 quilos
em apenas três meses, o nutrólogo carioca Alberto Serfaty é um dos mais
ferrenhos defensores da corrente protéica.
"Perde-se peso porque, ao limitar os
carboidratos, a gordura acumulada é inevitavelmente queimada para gerar
energia." Segundo ele, os benefícios vão além da silhueta
recauchutada: "A dieta das proteínas reduz o excesso de insulina, um
dos fatores que causam a obesidade, diminui a hipertensão e também o
colesterol."
A gente quer o cardápio inteiro e não
pela metade
A popularização da dieta protéica levou
muitos especialistas a fazer variações sobre o tema — sempre, é
claro, deixando os carboidratos no canto do prato. Enquanto Atkins só
permite nas duas primeiras semanas o consumo de 20 gramas por dia —
menos que uma maçã —, há quem libere o dobro disso, o equivalente a
duas fatias de pão integral.
Outra corrente veta esses nutrientes apenas
depois das 18 horas, quando o funcionamento do corpo fica mais lento. Os
médicos e os nutricionistas sentados do outro lado da mesa reconhecem que
o regime das proteínas é eficaz do ponto de vista da perda de peso, mas
jogam pimenta no debate.
"Ele é difícil de ser mantido. As
pessoas enjoam e voltam aos carboidratos", opina a endocrinologista
Maria Teresa Zanella, da Universidade Federal de São Paulo.
Aposta de Risco
Mais contundente é Alfredo Halpern. Na
opinião dele, o regime sugere o consumo de gorduras como algo inofensivo,
o que pode ser tremendamente perigoso. "O ideal é seguir uma
alimentação com um pouco de tudo, inclusive carboidratos", afirma.
O argumento de Halpern é reforçado por
uma recente pesquisa da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. Ao
investigar o que tinha no prato de 3 mil pessoas que perderam cerca de 15
quilos e mantiveram-se magras por um ano, descobriu-se que apenas 204
comiam menos de 90 gramas de carboidratos por dia. Sinal de que esses
nutrientes não precisam ficar longe das garfadas — distância que não
combina com dieta saudável.
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